Afinal, o OVO é bom ou ruim?

Ovo afinal é bom ou ruim?

 

Assunto mais polêmico impossível, então vamos discutir isso um pouco.

 

 

O primeiro  artigo  é bem recente, um estudo transversal  com quase 22mil pessoas nos EUA verificou que não houve associação entre o consumo de ovos e aumento de LDL colesterol, e ainda foi associado com maior ingestão de proteína, gordura e diversos micronutrientes. MAS, ele foi associado com maior IMC e maior circunferência da cintura.

Breve histórico: lá nas décadas de 70, 80 saíram diversos estudos dizendo que ovo e colesterol dietético fazem mal, trazendo maior risco cardiovascular. Daí todo mundo ficou com medo das gemas de ovo. A partir dos anos 2000 a indústria do ovo nos EUA se organizou e fundou a “Egg Nutrition Center” para incentivar a indústria, “limpar a imagem” do ovo, dentre outras medidas apoiando financeiramente estudos científicos sobre o consumo de ovos e o colesterol. Daí, saíram diversos estudos mostrando que ovo “não faz mal nenhum”, inclusive faz muito bem por que é muito nutritivo. 

Isso começou a se difundir no meio profissional, entre médicos e nutricionistas, e até convenceu uma boa parcela desses. O que eu percebi lendo esses estudos: o desenho dos estudos é muito “tendencioso” para não ter efeito negativo do ovo: as intervenções são com adultos saudáveis, por pouco tempo, quase nunca ultrapassam uma gema por dia, daí a conclusão é: o consumo de ovos não aumentou o colesterol LDL (ruim), aumentou o colesterol HDL (bom) e melhorou outras coisas….
O que acontece: profissionais raramente leem artigos científicos, quando leem só leem o resumo (especialmente a CONCLUSÃO) e nunca leem a parte final onde tem “Acknowledgements/funding/ Financial support/ Conflict of interest”. Váááários artigos sobre ovo receberam financiamento do “Egg Nutrition Center” e mesmo que os pesquisadores sejam éticos e não alterem dados, o desenho do estudo, na minha opinião, já é mais “direcionado” para um resultado que se quer obter.

No entanto, são vários estudos mostrando que o ovo realmente não aumenta o colesterol. MAS, outro estudo que saiu agorinha  é uma REVISÃO publica no JAMA (revista mais top em revisões do meio científico) que reuniu vários estudos prospectivos (estudos que acompanham as pessoas por muitos anos, esperam as doenças aparecerem, e buscam as causas) totalizando quase 30mil pessoas, também nos EUA, descobriu associação entre consumo de ovos e colesterol dietético com maior incidência de doenças cardiovasculares e mortalidade.
Só para esclarecer: nível de evidência cientifica de estudos transversais é baixo, não comprova causa e efeito, já de estudos prospectivos é mais alta (pois acompanho as pessoas e vejo as doenças acontecerem), de revisões como esta é mais alta ainda, pois reúne muitos dados de vários estudos prospectivos/longitudinais.

Ué?

Mas se ovo não aumenta colesterol LDL porque aumenta risco cardiovascular? Meu palpite é que a aterosclerose (enrijecimento, entupimento das artérias, onde o colesterol atua) e as doenças cardiovasculares talvez apareçam só a muito longo prazo, ou talvez ocorra por outras vias, como o TMAO. Não dá pra falar tanto em um post só, mas o TMAO é um composto formado pela microbiota intestinal, utilizando a colina da dieta (ovo é a maior fonte!). O TMAO é maior em onívoros do que em vegetarianos, ele está sendo estudado ainda, mas está associado com incidente cardiovascular, fibrilação arterial, aparentemente ele agride o tecido cardíaco por várias vias de ação. Mas o TMAO fica pra outro post!

Tem muito ainda para ser estudado, tirem suas próprias conclusões. Mas eu teria cautela no consumo de ovos e não ultrapassaria a recomendação diária de colesterol dietético vigente: 300mg, ou 200mg para quem tem risco cardiovascular. (uma gema já tem cerca de 200mg, e outros produtos de origem animal também tem colesterol. Produtos vegetais não tem colesterol, é uma substância produzida somente por animais (inclusive nós, seres humanos, produzimos nosso colesterol e não PRECISAMOS ingerir pela dieta.

As recomendações dietéticas são feitas pela Organização Mundial da Saúde e órgãos nacionais de saúde, são embasadas em MUITO estudo científico, elas não estão aí á toa. MAS, como TUDO NA NUTRIÇÃO, A INDIVIDUALIDADE é a regra básica, e cada caso deve ser avaliado individualmente por um profissional habilitado e competente!

Referências:

MELOUGH, Melissa M et al. Association of eggs with dietary nutrient adequacy and cardiovascular risk factors in US adults. Public Health Nutrition, [s.l.], p.1-10, 5 mar. 2019. Cambridge University Press (CUP). http://dx.doi.org/10.1017/s1368980019000211.

ZHONG, Victor W. et al. Associations of Dietary Cholesterol or Egg Consumption With Incident Cardiovascular Disease and Mortality. Jama, [s.l.], v. 321, n. 11, p.1081-1095, 19 mar. 2019. American Medical Association (AMA). http://dx.doi.org/10.1001/jama.2019.1572.

TANG, W.h. Wilson et al. Intestinal Microbial Metabolism of Phosphatidylcholine and Cardiovascular Risk. New England Journal Of Medicine, [s.l.], v. 368, n. 17, p.1575-1584, 25 abr. 2013. Massachusetts Medical Society. http://dx.doi.org/10.1056/nejmoa1109400.

 BLESSO, Christopher. Egg Phospholipids and Cardiovascular Health. Nutrients, [s.l.], v. 7, n. 4, p.2731-2747, 13 abr. 2015. MDPI AG. http://dx.doi.org/10.3390/nu7042731.

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